quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A vida social por um fio: o empreendedorismo criminal


Aconteceu essa manhã. Quando dobrei na Passagem 3 de Outubro, saindo da Dr. Freitas, voltando da minha caminhada matinal, a moto parou a meu lado. A mão do carona foi direto para a cintura, bem na direção do meu olhar. Sacou a arma enquanto descia do veículo e mandou eu “ficar na minha”. O impulso de um milésimo de segundo me fez procurar um rota de fuga no mesmo instante em que a moto parou e vi a cena. Já sabia que era um assalto. Mas ao ver que eu titubeava, o bandido reforçou: “deita no chão! Eu vou te matar”. Enquanto aproximava a arma da minha cabeça, que começava a me preparar psicologicamente para morrer, ele continuou: “deixa ver se tu não é policial.” Eu estava ajoelhado, olhando para o chão. Depois de me revistar e ver que não tinha mais nada além do celular, ele pegou o aparelho, montou na moto e foi embora. Um dos donos do restaurante popular em cuja frente ocorreu a cena, saiu logo depois e me olhou com aquele ar misto de pena e solidariedade. “Impressionante, rapaz, como esses caras humilham a gente”, disse ele.

Divisão de Repressão a Roubos e Furtos, na Sacramenta, Belém-PA
Cheguei em casa, poucos metros adiante, e vi que o aparelho ainda estava ligado porque o whatsapp web (recurso que permite mandar e enviar mensagens pelo computador conectado ao aplicativo) estava ligado. Por uma hora ainda pude entrar em contato com as pessoas que eu conversava para alertá-las sobre o assalto. Achei que eles poderiam estar monitorando meus contatos, mas acabei pensando mesmo é que eles desligaram o aparelho somente depois de terminar a “ronda” matinal.

Já fui assaltado muitas vezes. Morando na periferia de Belém, já presenciei cenas que nunca ousei relatar no Facebook (não é lugar de expor suas fragilidades, não é mesmo?) mas segui em frente, cuidando de mim e dos meus. Mas juro que naquele momento em que me ajoelhei, eu me preparei para morrer. Quando você convive com a violência, você acaba se preparando para situações como essa. Depois que você evita certos lugares e certas práticas, em certos horários etc etc; e, ainda assim, coisas como essa acontecem às 7h30 da manhã, em via pública, diante das pessoas, você percebe que além desses cuidados (para evitar a violência) você também tem que estar preparado para morrer. A morte torna-se banal e não é para o outro é para você inclusive.

Ok. Mas você não morreu! Você dá graças a Deus por isso, mas também lhe convém continuar na vida tentando achar novas soluções para um problema crescente, presente, vivo. Ou vamos desistir de viver. Não! Vamos morrer lutando, tentando entender.

Hoje em dia odeio textão de facebook. Não porque não goste de ler. Acho que, na maior parte das vezes, é hipocrisia, falta do que fazer e não dá em nada mesmo. Fazia. Parei. Até mesmo meu blog está subutilizado pelo descrédito em quem me ensinou a escrever e analisar fatos cotidianos. Escrevo projetos, cartas, esboços de livros e pesquisas que, acredito, possam mudar de fato a minha vida e a vida das pessoas que amo. Mas a gente não pode passar por uma experiência dessas sem refletir e sem compartilhar com um grupo maior de pessoas, urgentemente, porque isso é o nosso cotidiano. O nosso lugar do comum. O espaço da nossa convivência.

Quando fui assaltado há dois anos na Praça Dorothy Stang, à noite, vestindo roupa social, em companhia de uma namorada, me disseram que eu não devia estar ali. Sei que não é justo dizer que a culpa é da vítima, afirmar que devem existir lugares públicos na cidade que você não deve frequentar. Não aceito essa proposição. Paguei o preço de arriscar viver em sociedade, encarando uma população ainda mais pobre que eu no nosso lugar comum. Mas me rendi aos fatos e às circunstâncias. Sei que a vida real exige cuidados práticos. Fui assaltado ao lado de um PM Box. Nunca mais dei esse “mole”. Meu novo celular durou quase dois anos sem ser roubado. Um recorde.

 Mas, entre todas as outras experiências que vivi vendo a violência da periferia de Belém, nenhuma me deu tanto medo quanto esta última. Como eu disse, a convivência com a violência lhe cria uma casca. Vida cotidiana, morte cotidiana. Sempre foi pior e mais revoltante para mim a violência institucional de agentes públicos, de colegas de profissão e trabalho, de pessoas amadas que lhe traem não apenas a confiança, mas te violentam mesmo (escrevamos isso com muito cuidado e deixemos em suspenso, por enquanto). O que quero dizer é que não dá para ficar escrevendo textão sobre corrupção do congresso ou do executivo, é preciso analisar a degradação cotidiana, que está ao nosso lado, dentro de casa, no trabalho, na nossa rua, dentro de nós. Ou você acha que chegamos a esse ponto no Brasil de hoje graças aos “outros” e não graças a um conjunto de valores comuns? “Eles” e “nós”. Certo. Entendo. Mas por que falamos “deles” lá e não falamos deles aqui?

Ok, estamos falando da bandidagem, daqueles que não têm jeito de serem considerados “comuns” a quem é cidadão “de bem” (observem atentamente estas aspas) e vive honestamente de seu trabalho. Você, por um momento, quando tenta cumprir suas obrigações junto ao Estado, pagar seus impostos, suas taxas, suas multas, mesmo vendo blitzen diárias no trânsito e vendo os órgãos arrecadando uma dinheirama sem que isso se reverta em absolutamente nada para o cidadão “de bem”, perde o controle, revolta-se. Como não se revoltar? E como ser tão passivo?! De um lado a bandidagem te humilhando e te roubando, de outro lado o poder público te arrochando os bolsos, e te humilhando também. Por um momento você entende perfeitamente os seguidores do Bolsonaro, que sabe como poucos catalisar essa revolta “comum”.

Mas, novamente, vamos tentar refletir. Pense em dois homens brancos talvez entre 25 e 35 anos, em plena idade produtiva, portanto, dirigindo uma moto às 7h da manhã, procurando um “trouxa” como eu que decidiu sair para caminhar de manhã levando o celular na mão. Veja bem, são homens brancos, de porte físico, de fala articulada. Aquele é o “trabalho” deles. Se eles não passaram a noite “cheirados” e decidiram “meter o bicho” para descolar um troco e manter a farra no dia seguinte, eles seriam outra coisa. Que coisa? Essa primeira análise é a análise, penso eu, que a classe média “bolsonariana” faria a princípio. A análise do “pobre preto e desfavorecido”, que seria a análise da classe média autodenominada “de esquerda” já caiu por terra no início desse relato.

Quem seriam essas pessoas, então? Integrantes da milícia armada que atua impune nas ruas de Belém? A interrogação que me fizeram sobre eu ser policial enfraquece essa versão. O revólver usado no roubo também. Era um 38 velho. Já vi a milícia atuando. São pessoas que assumem postura de atiradores profissionais quando correm armados. Eu vi essa cena na rua de noite com mais quatro testemunhas dentro do carro. Eram homens em idade produtiva de classe média. Sim, com a coragem de ir para a rua roubar e talvez matar para garantir um padrão de vida, um “sustento” qualquer que seja ele. Pela minha experiência (além de ter sido assaltado muitas vezes, de conviver no mesmo espaço que marginais de diferentes classes sociais, eu fui repórter, fiz até curso de detive e cobri a polícia por um tempo), eram pessoas de classe média e não estavam drogadas. São bandidos. Mas, um tipo entre tantos tipos de bandidos a solta.

Apesar do medo de morrer na hora em que o assaltante disse que me mataria, pude constatar (estando vivo agora) que eles, enfim, não me matariam mesmo. Ao menos não me matariam se eu não tivesse uma arma. Depois do susto parece o óbvio ululante, mas me diz que foram mesmo é oportunistas, aproveitaram meu descuido e que agiram de forma consciente, em uma área que aparentava segurança para a ação. Uma ação planejada. Talvez tivessem me seguido por uma ou mais quadras antes de agir.

Você fica pensando nessas pessoas acordando cedo, se arrumando e indo para a rua roubar às 7h da manhã quando o cidadão sai para o trabalho ou volta de sua caminhada matinal. Quando você pensa neles como pessoas comuns, você os imagina planejando a ação e circulando com o celular ligado, do jeito que foi tomado da vítima, por mais uma hora, enquanto fazem outras vítimas. Talvez eles tivessem até uma meta de “arrecadação”. Digamos que eles roubem 10 celulares por semana. Digamos que consigam vender estes 10 celulares por 300 reais. Faturam 3.000 reais em uma semana. Algo melhor do que viver sem renda nenhuma em situação humilhante diante da roubalheira nacional. São empreendedores do roubo! Fico imaginando essas pessoas discutindo a votação no senado sobre a permanência do senador Aécio Neves ou o julgamento de Lula. Some isso a todas as notícias de roubo e ações violentas que ocorrem no país e você tem um quadro que causa pânico e cegueira social nas pessoas comuns, mas onde é claro o sentido de degradação generalizado para quem tentar encontrar soluções fáceis. Como os “bolsonarianos”. A mim, fica claro que temos que dar respostas no mundo da vida, na mudança e reorganização da sociedade. Quem sai de casa para roubar como se fosse um trabalho, está sujeito a matar e morrer. A sociedade também estará preparada para isso, como eu me preparei para morrer. Ontem mesmo um vídeo no whatsapp mostrava uma parte da população agredindo um bandido dentro de uma casa em que ele entrou. Isso porque a essas pessoas fica cada vez mais claro que não há justiça senão pelas próprias mãos. Hão de se organizar também como em milícias, quem sabe?

        A mim, resta decidir se presto queixa na polícia ou não. Afinal, fui assaltado a pouco mais de 100 metros da Divisão de Repressão a Furtos e Roubos (DRFR) da Polícia Civil, onde, como se pode ver na foto, carros e mais carros se acumulam sobre a calçada e a ciclovia sem que os colegas de blitzen do Detran façam qualquer coisa. A certeza da impunidade é um incentivo ao empreendedorismo criminal emergente.  
         
         Quanto à nossa vida, preparamo-nos para morrer pensando que é o único destino certo. Vida cotidiana, morte cotidiana. O foda mesmo é pensar no fim da vida social como um ambiente em que deve florescer aquilo que aprendemos chamar de “humanidade”.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Dinâmicas sociais e econômicas do Brega Paraense

Deste junho (e até dezembro, provavelmente) estou apresentando o projeto Cenas Musicais do Pará. Trata-se de um ciclo de palestras derivado da minha dissertação de mestrado no PPGCOM/UFPA e baseado em estudos meus e de outros autores paraenses, que uso como referência no trabalho sobre cenas de gênero. Já falei sobre a intersubjetividade do carimbó eletrificado dos anos 1970 e sobre o fantasma nativista no rock paraense, abordando bandas como Madame Saatan, Norman Bates, Stress, Mosaico de Ravena e Molho Negro. 


Festa na Cidade: Aparelhagem Super Pop (Foto de Tarso Sarraf/O Liberal)

Nesta terça-feira, dia 26, vou apresentar uma análise sobre a dinâmica de sociabilidade e de mercado do brega da capital paraense, que se baseia em muito no trabalho do Prof. Antonio Maurício Dias da Costa, autor de "Festa na Cidade - O Circuito Bregueiro de Belem do Pará" (UEPA, 2009). 


Será a partir das 13h na Fonoteca Satyro de Mello, terceiro andar do Centur. Aos colegas da música ou da comunicação, estudantes e professores de artes estendo o convite para debaterem comigo sobre o mercado fonográfico, sociologia da arte e outros temas tão importantes no âmbito da cultura no estado.

Também vou abordar casos estudados na minha dissertação, como a ascensão midiática de Gaby Amarantos e apresentar outras referências sobre mercado, baseadas no livro "Tecnobrega: O Pará reinventando o negócio da música", organizado por Oona Castro e Ronaldo Lemos (Aeroplano, 2008). A intenção é analisar a trajetória desse circuito e definir os fatores que influenciaram o fortalecimento ou o enfraquecimento da cena, ou seja suas dinâmicas sociais e econômicas".

Devo agradecimentos especiais à diretora da biblioteca do Centur, Ruth Selma dos Santos, que abraçou o projeto, e ao fotógrafo Tarso Sarraf, que liberou a imagem que ilustra este post. Grato.  

SERVIÇO:
Palestra "Dinâmicas Sociais e Econômicas do Brega Paraense"
Com Prof. Ms. Elielton Nicolau Amador
Dia 23 de Setembro - Terça-feira, às 13h
Fonoteca Satyro de Mello - Terceiro Andar do Centur
Entrada Franca

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Glocalismo no Rock Paraense

Como disse no post anterior, amanhã vou ministrar a segunda palestra de uma série sobre sociabilidade em gêneros musicais paraenses no Centur, em Belém, Fonotec Satyro de Mello (3º Andar). O primeiro tema analisou a projeção dos artistas de carimbó por meio das capas de discos lançados a partir da década de 1970. Na palestra/aula de amanhã vou falar sobre Glocalismo no Rock Paraense. Vou analisar um pouco o conceito de cena musical e vou mostrar esse glocalismo/nativismo em músicas e clipes de bandas como Norman Bates, Madame Saatan, Stress, Turbo, Molho Negro e Mosaico de Ravena.

Reprodução Internet do clipe de Respira, da banda Madame Saatan

A palestra acontece dentro da programação da II Feira do Vinil, onde você poderá também comprar e trocar vinis de todos os gêneros pois haverá vários expositores.  A palestra começa às 14h e depois haverá pocket shows de artistas paraenses. Ao longo do segundo semestre, uma vez por mês nós apresentaremos, sempre na Feira do Vinil, apresentarei as características das cenas de gênero que analisei em minha dissertação: a música regional, as guitarradas, o brega e uma certa cena de artistas marginais/alternativos. Esperto vocês lá. 



A cultura musical paraense e o ensino de jornalismo

As alunas Ariana Pinheiro Barros, Fabiana Favacho da Costa e Katiuscia Pamela Souza Macêdo apresentaram há pouco mais de um mês, no curso de jornalismo de uma faculdade particular de Belém, o trabalho de conclusão intitulado “Jornalismo Cultural no Pará: Uma Análise dos Jornais O Liberal e Diário do Pará Sobre a Divulgação da Cultura Popular Paraense”. Este trabalho cita de forma generosa minha dissertação de Mestrado, apresentada em 2014 no Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM) da UFPA, sob a orientação do Prof. Fábio Fonseca de Castro.
    Apesar de o recorte da análise ter ficado um pouco confuso, pela amplitude de temas escolhidos dentro da comparação entre os dois jornais, isso não o comprometeu – tanto que foi aprovado com nota máxima pela banca. O trabalho tem a virtude de ser crítico dentro do mar de superficialidades que domina o estudo do jornalismo e da comunicação hoje em algumas instituições do Pará e da Região Norte (quiçá do Brasil).  Certamente, essa criticidade, princípio fundamental do jornalismo, se deve à orientação da professora Shirley Penaforte, pelo que a parabenizo e sou grato pela indicação de leitura do meu trabalho.

     Escrevo e ressalto minha citação no trabalho por obrigação da dádiva que me foi conferida, por meio de dinheiro público, na manutenção da minha pesquisa – pois praticamente toda pesquisa no Brasil foi ou é (não saberemos até quando será) financiada por dinheiro público, e é obrigação de todo pesquisador compartilhar com a sociedade os saberes produzidos por ela (a pesquisa).

      Cito sempre o professor Fabio Castro –  que é, na minha modesta opinião, um dos maiores pensadores vivos sobre a cultura da Amazônia, e, portanto, de uma parte fundamental da cultura nacional –, pela mesma obrigação ética. (Inclusive, os estudos do Prof. Fábio mereceriam ser muito mais debatidos do que são hoje, mas isso é tema para outras reflexões).

       As ideias sobre nativismo e pertencimento na cultura amazônica vêm dele. Eu apenas tenho dado uma singela contribuição na análise desses e outros aspectos na cultura musical paraense (bem como sobre o jornalismo e a própria pesquisa em comunicação). E tenho tentado ajudar na divulgação popular (por assim dizer) dessa ciência tão importante. Assim o fiz em junho passado, quando participei da I Feira do Vinil da Fonoteca Satyro de Mello, no Centur, palestrando sobre a cultura do carimbó eletrificado nas capas dos LP’s lançados a partir da década de 1970.  
       
        Adaptada de um capítulo da minha dissertação, a palestra/aula caiu no gosto do público e, felizmente, da direção da fonoteca que me convidou para seguir com mais quatro palestras sobre gêneros musicais paraenses nesse segundo semestre.  Todas estão presentes na mesma dissertação (amanhã apresentarei a segunda exposição, sobre o rock paraense e já publico um post específico sobre isso).  

       Dito isto, gostaria de fazer, rapidamente, duas observações sobre o trabalho das alunas da Feapa. É fundamental para a mudança do quadro precário de trabalho no jornalismo brasileiro, e mais especificamente na Amazônia, que o jornalismo não só resgate a sua dimensão crítica (no sentido de revelar verdades possíveis sobre a realidade) como a torne rotineira, cotidiana. A cultura das redes sociais, que gera os chamados “haters”, é fundamental para o culto de uma falsa harmonia na sociedade, o chamado “deboísmo” etc etc. A banalização da comunicação social (por meio da tecnologia disponível) tornou os jornalistas e seus estudantes reféns dessa premissa de que não devemos desagradar a ninguém e devemos (obrigatoriamente) agradar a todos. Isso tudo, obviamente, merece aprofundamento, mas já existe literatura dispersa a respeito.

      Pode até ser que a postura crítica das meninas torne a entrada no mercado de trabalho provinciano um tanto difícil. Por isso mesmo, sindicato, faculdades e universidades devem abraçar seus alunos e afiliados no sentido de protegê-los no exercício crítico do jornalismo. Na atual situação que o país vive, esse será um exercício de longo prazo muito doloroso. Principalmente porque na mídia corporativa nacional essa “premissa crítica” é mascarada por interesses econômicos muitas vezes subterrâneos, criando uma imagem muito negativa do jornalismo perante algumas plateias e difundindo falsos princípios em seus praticantes.

        Em segundo lugar, sobre o TCC em si, minha dissertação foi citada nas partes que tratam do Terruá Pará, onde analiso a dinâmica societal de escolha de artistas e produção do programa, bem como de sua dimensão político discursiva, o que por si só torna o trabalho fundamentalmente sofisticado. Não se prendeu a reproduzir a propaganda oficial sobre o evento. E também tratou, ainda que superficialmente, da ideia de nativismo, que é importantíssima para os jornalistas, músicos, artistas em geral, diretores artísticos e produtores darem um sentido para a produção cultural da Amazônia em seu contexto nacional e global.

       Mais uma vez agradeço aos professores e instituições que permitiram a difusão desse conhecimento, às ex-alunas que tiveram boa vontade com minhas dicas e orientações sobre as partes do meu trabalho e desejo muita sorte a elas na trajetória que se inicia. Que consigam elas se manter na mesma linha de pensamento e ação no jornalismo cotidiano. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Palestra sobre história do carimbó massificado na Feira do Vinil

Palestro amanhã, às 14h, no Centur sobre o boom do carimbó dos anos 1970, por meio de análise das capas de vinil. Haverá também venda e troca de vinis e shows com Pinduca e Afonso Cappelo.

Feira do Vinil hoje n o Centur. Evento dever periódico e pode se repetir em novembro


Hoje inaugurou a primeira Feira do Vinil do Fonoteca Satyro de Melo, no Centur. A minha primeira feira também como expositor. A ideia foi do Flavio Lacerda, 42, que, segundo ele, vende vinis desde o primeiro disco que comprou, o LP de estreia da banda B-52’s. “Vendi o primeiro para comprar o segundo e não parei mais”, conta.

A ideia foi endossada pela diretora da Fonoteca, Ruth Selma dos Santos. Os aficcionados por vinis adoram também pois há mais de 2.600 discos a disposição. Aarão Carajás, médico de 33 anos, paraense, que atualmente mora em Recife (PE), deu sorte de estar na cidade durante a Feira. “Em Recife não tem um evento assim em um lugar com era condicionado e gente que entende de música para a gente trocar ideia”, ressaltou.

Junto com a troca e venda de vinis, haverá palestras sobre conservação, discotecagem e até uma palestra sobre a história social do carimbó, contada por meio das capas dos LP’s lançado na década de 1970, quando ocorreu o boom do carimbó gravado em acetato.


A palestra é baseada em um dos capítulos da minha dissertação de mestrado, “A Cena Fantasma, um olhar sobre a experiência da música massiva da Amazônia”, defendida em 2014 no PPGCOM/UFPA, sob a orientação do Prof. Fabio Fonseca de Castro. A palestra será amanhã, dia 27 de junho, no auditório da Fonoteca, no terceiro andar do Centur, a partir das 14h. Depois, ainda haverá apresentações musicais com Pinduca e Afonso Cappelo. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sociabilidade, música e espetáculo ao tucupi

Fui assistir ao show do Vitor Ramil no Palafita, dentro da programação do 30º Festival Internacional de Música do Pará. Cheguei lá pelas 20h30 com um amigo. Um grupo de mais ou menos 15 pessoas se amontoava diante da porta fechada do estabelecimento. Gente com garrafas de cerveja na mão reclamava que tinha “saído pra fumar” e que "estava na mesa lá dentro”. Outros diziam que a casa estava com as mesas lotadas, mas não tinha quase ninguém em pé. Diante da recusa dos porteiros em nos deixar entrar, alguns argumentos foram proferidos de dentro do grupo na calçada e rua históricas da Cidade Velha onde lutaram os cabanos.


Uma das pessoas barradas no baile disse que “eles” (os organizadores) precisavam contar direito porque a casa comportava 680 pessoas e não havia tudo isso lá dentro. Outro disse que “só podia ser em Belém” tal desorganização. Outro o repreendeu dizendo que desorganização existia em todo o lugar e que isso não era exclusividade da nossa cidade. Ao ouvir isso uma moça no grupo gritou: “é, sim, lá na Europa é tudo avacalhado mesmo!”. Outro: “É verdade! Belém não é desorganizada, só tem grupo de milicianos que fecham as ruas e metralham pessoas, inclusive crianças, em bares”. Alguém sugeriu filmar “e por no youtube”. 

Eu conclui, enquanto mais pessoas chegavam à porta do dito estabelecimento: “Amigo, o povo está ficando impaciente e o número de pessoas está aumentando. É melhor você deixar a gente entrar do que a gente derrubar esse portão”. Não sei qual argumento funcionou, mas nos deixaram entrar sem maiores problemas. Meu amigo, porém, foi embora, pois estava esperando a namorada dele, que estava trabalhando e chegaria só depois das 22h para o show do Vitor. “Eu não a faria vir para cá para depois ter que sair para ficar com ela fora do show”, justificou. Achei a atitude precipitada, mas coerente com a "desorganização de Belém". Muita gente, porém, chegou depois das 22h e conseguiu entrar.


Outro fato:
Luísa Lacerda cantou muito bem. E tocou muito bem seu violão também. Talvez estivesse um pouco nervosa e insegura para um festival internacional, mas isso não lhe tirou o brilho. Foi lindo, cada canção, principalmente a de Sergio Sampaio e a de Ronaldo Silva.



Outra sociabilidade:
O lugar acabou ficando realmente lotado. Aguardando em pé o início do show do cantor e compositor gaúcho, acabei por me acomodar ao largo do corredor, ao lado de um homem que, por sua vez, já tinha encostado seu “balde de gelada” na caixa de som da frente do palco. À minha frente, outra pequena multidão já começava a bloquear a passagem, sentada no chão. Nesse momento, o homem do balde de gelada se dirigiu a mim e o seguinte diálogo ocorreu:

Ele: Não vai prestar tu ficar aí no meio da passagem!

Eu (olhando para a pequena multidão sentada na frente do palco): Então, não vai prestar pra ninguém, veja só...

Ele, então, disse duas frases incompreensíveis onde só se pude decifrar o “porra” e o “caralho”.

Eu: Vou desculpar a sua falta de educação porque não vim aqui para bater boa com o público...

Ele (interrompendo e quase gritando): Ah, sim, muito obrigado por me desculpar!! Isso é porque tu não sabes com quem tu estás falando!

Eu (de bate pronto): Ah, agora precisa saber “com quem estou falando”?! Não, não preciso saber com quem eu estou falando, me basta saber sua abordagem, sua falta de educação. (E fiquei encarando-o).

Finalmente, dei as costas para ele e voltei atenção para o palco. Antes do show começar, porém, o homem da gelada pediu desculpas e justificou seu comportamento por já ter colocado "umas cervejas na cabeça". Sorrimos e apertamos as mãos.

Esperava o primeiro comportamento dele num show do Wesley Safadão, não no show do Vitor Ramil. O pedido de desculpas e as risadas descontraídas depois tinham mais a ver com a música e o público de Vitor, penso.

Sobre o show
Realmente foi um show maravilhoso. Não assisti todo. Só a metade, até quando ele cantou “Joaquim”. Já assisti vários shows de Vitor em Belém. Já o entrevistei algumas vezes. Lembro do tempo em que o público paraense insistia em que ele tocasse “Joaquim” e “Loucos de Cara”, e “torcia a cara” para as músicas “novas”. Ao longo de sua carreira, porém, Vitor Ramil, com uma qualidade inquestionável e uma estratégia digna de prêmios e estudos, conseguiu afirmar quase todo seu repertório junto ao seu público. Um público fiel e apaixonado. Foi impressionante e muito reconfortante ver o Palafita lotado cantando junto aos sons dos primeiros acordes uma música tão pouco convencional quanto “Foi no mês que vem”. Um sintonia incrível. E ainda teve, claro, espaço para mais músicas novas. 


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Minhas dicas na Feira do Livro


Passeei pela XXI Feira Pan-Amazônica do Livro garimpando livros e achei quatro preciosidades. Nesse vídeo eu dou a dica dessas obras de Michel Foucault, Thomas Hobbes e Lewis Hide. Confira clicando abaixo.